Moinho

15 Abr

Moinho

 

Na beira do abismo onde nascem os sonhos,

Homens deitados descansam suas carcaças fúnebres,

Vazias das almas que se dissolveram na luz obtusa

de um último orgasmo.

De dentro delas, nascem flores secas.

Azuis, amarelas, vermelhas.

da cor da face temível de suas viúvas desconhecidas.

E como gemem esses homens!

O gemido silencioso da dúvida.

Clamam por um colo que acalme

o frio de seus corpos vazios de esperança.

Serpenteiam ali deitados, ao som assimétrico

do útero inviolável das mulheres santas.

Elas estão prestes a parir a fúria,

como quem enfrenta um inimigo.

Elas estão prestes a parir a morte,

como quem enfrenta a vida.

A morte não é o inimigo.

A vida é.

Inimigo solitário nesse tempo aberto como o coração de Deus.

O tempo do espólio fecundo de quilos de saudade.

O tempo dos homens vazios que se anula

 dentro do olhar abatido pelo prazer pagão.

O tempo que vive neles é pagão.

A dor que deles evapora é pagã.

O perdão de suas viúvas virgens é pagão.

E os homens vazios que gemem a beira do abismo

Desejam, no delírio do tempo,

A alegria reversa dos meninos verdes.

Esses correm descalços de temores, molhados pela chuva.

A chuva é o componente místico da liberdade.

A liberdade é o átomo indivisível da alma.

Os meninos não dependem da dor que purifica os homens.

Dentro dos meninos tudo é fértil.

Tudo é santo.

Tudo é pagão.

Eles conhecem o amor. Eles não conhecem o amor.

Não sabem do amor. Só sabem do amor.

Sustentam o próprio peso no solo movediço das emoções.

Um dia serão abraçados pela vaidade indigente.

E esvaziados pela luz obtusa de um último orgasmo.

A beira do abismo dos sonhos, também descansarão

Dulcíssimo abraço

23 Fev

Imagem

Imagem do filme “Sonhos” de Akira Kurosawa

Um abraço só.

Entre um passo sôfrego e outro

meu riso incongruente se decifra em dois caminhos.

Um é de beijos e afagos.

Outro é de dúvidas e tormentos.

Dúvidas e tormentos.

…Dúvidas e tormentos…

E a música cínica de minha memória tendenciosa,

embala meus amores intangíveis.

Sempre espero pela dor que me desperta, tranquila,

da plenitude dos sonhos  belos.

Fico com o medo. Nele sou muito mais.

Nele sei andar sozinha.

Nele eu fico do tamanho da infância.

Tragédia é a renúncia da felicidade ilusória.

Ao menos uma vez.

No mistério de um abraço é que a vida se perde.

No mistério de um abraço é que a vida se vê outra vez, só.

No mistério de um abraço.

Outra vez.

Só.

Fanfarra

9 Jan

 

                    Ô vida inútil!

                Ô vida sem graça!

         Debocha de mim, malvada,

           enquanto o tempo passa.

             Mas a risada mais alta

                 enfim será minha.

             Ao final dessa jornada,

        quando eu bater em retirada

         por tristeza, fome ou tiro.

          Livro-me da tua insolência,                             

                  Provo ao fracasso

                 minha competência 

           E te deixo sem reticência.

          E no frio de minha ausência

                  Há de sentir falta

           do meu mundo colorido.             

         Do meu querer constrangido,

        Minha decência escancarada.

      E todo amor que plantei escondido,

     enquanto teu peso me assustava

         há de tecer na madrugada

           milhões de campos floridos.

           Dispersos. Quase Infinitos.

         Do tamanho dos meus amores.

 

Tudo que sei sobre…

29 Dez

Imagemhttp://olhares.uol.com.br/RBMorganStudios

Tudo que eu sei sobre…

Amor?

Fratura exposta.

Desatino gritante. Desnecessário?

Fundamental como a sujeira do corpo.

Manipulador perverso da santíssima trindade:

Dor, Ardor, Torpor.

Centelha de adeus à lucidez.

Supressão questionável dos sentidos.

Alegria vigilante. Viva.

Uma dívida.

Um colo.

Um soco no estômago.

Palavra presa na boca.

Dança solitária em praça pública.

Dúvida eterna.

Pernas escancaradas de mulher parindo.

Pernas entrelaçadas de mulher trepando.

Pernas trêmulas de mulher desejando.

Sorriso vazio.

Memória de futuro.

E luz! Muita Luz!

Todas as luzes internas acesas.

Farol iluminando o olhar obsceno da noite.

Travelling

9 Dez

Imagem

Travelling

Procurando em círculos, os nós da compreensão.

Que sejam desfeitos.

Para desespero da ciência cética.

Vidas perdidas de tantos homens!

Não há luz que ilumine delinquências.

Procurando em círculos

Pés plantados na urgência

Não há tempo!

Cautelosos!

Mil corações fecharão  portas.

Vontade humana de deitar no ventre do universo.

E reincidir o contrato com a paz. Romper com a guerra.

A compaixão ressentida perdeu-se pelos caminhos

da dúvida.

Devo ancorar meu pensamento no cinismo inerte dos homens de boa vontade?

O êxtase não se estabelecerá na selva cinza.

O sexo não encontrará o gozo.

Também tenho teto de vidro.

Meu custo é pouco e o amor não é moeda de troca.

Nada me purifica.

Meus medos não se sustentam.

E que nada nos resgate do abismo.

Merecedor que sou,

Pela cumplicidade

que dorme em meu silêncio,

enquanto

compartilho a culpa com os criadores do caos.

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