Arquivo de Abril, 2012

Waiting for luck _ Wladimir Kush

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Autoflagelo

Posted: 06/04/2012 in A vespa erotiza
E sonhar não faz parte da minha vida. Nunca fez. Da minha vida faz parte o desejo. Latente. Serpenteando meus pensamentos dia e noite, noite e dia. Queima essa volúpia cadente que retorce a alma, umedecendo meus órgãos, estremecendo minha língua. Passam as horas torturantes. E ele continua ali intacto, cativo, soberbo, me invadindo sem medo.
O meu desejo não tem nome que eu conheça. Mas uma roupa provocante, de tecido dançante, suave, balança com o sopro do vento. Minha visão fica turva de tanto delírio. Minha voz é a primeira a fugir de mim. Covarde! Tudo em mim se rende. Se curva.
Naquela calçada, com hora marcada, desfila meu tormento. Como se não soubesse, passa lentamente. Arrogante, leva meu olhar sem piedade. Minhas pernas gemem. E eu já nem sei se desejo a satisfação desse meu desejo. Talvez meu prazer seja esse. O simples desejo. Não. Não sou voyeur. Os cinco sentidos dividem o êxtase da dança suave do seu corpo quando caminha. Talvez de tanto desejar, nasceu em mim um sexto sentido, que capta a lascívia daqueles trejeitos.
Mesmo dormindo a febre desse querer animal permanece. Minhas mãos solidárias procuram o caminho obscuro da satisfação solitária. Eu sistematicamente decreto que não. Não posso dispor numa mísera função fisiológica essa promessa de paraíso que se anuncia no meu querer. E rolo na cama, mordisco meus lábios, aperto os olhos e me acaricio. Arrepio. E esse calor, de tão forte incendeia minha alma. Devora minha calma. E eu desejando possuir cada canto do lânguido ser. Peito, boca, colo, sexo. E eu em delírio. Minhas mãos trêmulas insistem em saciar a sede que sinto daquele corpo. Não. E durmo imaginando que no dia seguinte, minha pérfida agonia terá fim. Num instante de pura grandeza, me imagino no mais excêntrico envolvimento carnal. Fluídos corpóreos. Suspiros. Gemidos. Saliva salgada, impregnada de carmas adormecidos. Reviro os olhos, quase enlouqueço ao som de nossos gemidos. Minhas mãos agora livres das amarras da minha teimosia passeiam sorrateiras pela escultura ondulada das ancas. E os pelos molhados anunciam o prazer se aproximando, trotando ao som das batidas do coração. Cada vez mais forte o cheiro dos mistérios gozosos que desejei a vida inteira. Mal consigo controlar os espasmos do meu corpo. A mistura de frio e calor entre minhas pernas. E antes que o delírio absoluto me prenda pra sempre numa lancinante desarmonia de sentidos, numa explosão, numa ebulição intensa do meu corpo, pulo da cama:
– Não! Não! O grito ecoa pelo quarto acordando todos que repousavam.
– O que houve? Perguntam invadindo meu quarto – Que grito foi este?
– Nada, voltem a dormir e me desculpem!
Nesse instante descobri meu verdadeiro caminho para o prazer.
Desejar sempre…
E a boca procura a língua,
a língua procura o falo,
o falo procura a saliva
na saliva, que haja calor!
Se o calor procura o gemido
No gemido, que haja loucura!
Na loucura procuro ternura.
A ternura procura o colo,
E no colo está teu desejo
No desejo, morre minha lucidez
Na lucidez o amor exposto
à deriva do êxtase.