Final de domingo.

Posted: 10/05/2012 in A vespa conta

Levantou-se e foi de encontro à porta com os passos amarrados de quem não queria ir. Parou, virou-se e olhou-me com uma ternura incompatível com o momento. Corri em sua direção. A distância já era enorme.  Segurou meu rosto com as mãos trêmulas e deu-me um longo beijo, com gosto de final de domingo. Sabíamos que era a hora do adeus. Mas nossos corpos estavam longe de concordar. Sempre me pergunto se há um momento na vida que representa a exata confluência das convicções da inteligência com as voracidades do corpo. Enquanto a resposta não vem, concentro-me nas necessidades práticas do nosso cotidiano. O meu e o dele. Não tínhamos a menor afinidade intelectual. Eu lia Hilda Hilst e ele berrava o hino obsceno do time do coração. Eu cozinhava meus melhores pratos vegetarianos e ele vasculhava nas páginas do jornal da semana o endereço da churrascaria da moda. Eu ouvia world music e ele, atento às últimas tendências do mundo pop. E as diferenças brotavam a cada dia. Não havia conflito direto, a paixão nos fazia calar os incômodos da convivência desprovida de afinidades. Vivíamos apenas breves espantos frente as nossas inúmeras incompatibilidades.

Não havia pilares no intelecto capazes de nos sustentar. Mas bastavam alguns minutos de encontro físico e tudo se dissolvia. Era um festival de suspiros, muito mel e sonhos inconfessáveis, descaradamente desvendados naqueles momentos onde éramos inteiros.

Mas como tudo que pende de um lado só, um belo dia, resolvi que queria o fim. Na verdade, nesse dia não houve nada de belo. Em pé, num triste diálogo onde me sentia acuada pela sua inconformidade, nos despedimos. Pela primeira vez, não nos despimos. Não no sentido físico da palavra. Ele trágico, ponderava sobre os meus motivos expostos sem dramatização. Eu era só certeza.

Ele questionava as causas. E eu, escondendo a minha agonia por estar dispensando, aquele que talvez tivesse sido meu melhor amante, respondia em voz alta para ele, tentando também acreditar:

-E quem precisa de razões para encerrar uma relação incompleta? Assim como não há razões para se iniciar uma paixão, um amor, uma amizade. Sentimentos são etéreos e dissimulados. Quase sempre desconhecemos a dimensão da sua verdade. Nunca chegamos ao fim, nunca entregamos as armas. Os medos estão presentes a cada beijo, a cada abraço, a cada carícia. Em cada gesto de carinho que se dá pela metade, pode procurar; o medo leva os outros 50%. É inevitável. O medo levou minha outra metade também.

E ele se foi, com as mesmas dúvidas que eu. Mas com todas as possibilidades de encontrar novas respostas, embora as perguntas permaneçam sempre nos mesmos lugares. E mais uma vez só resta uma certeza em mim, a de que o amor só é verdadeiro no seu derradeiro final, quando fechamos a porta entre nós e abrimos uma porta para o mundo.De perguntas sem respostas.

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Comentários
  1. Tânia Consuelo diz:

    Parece que é assim mesmoqe acontece e é mesmo.

  2. diariosujo diz:

    Joice, vou acompanhar sempre seu blog.

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