Arquivo de Agosto, 2012

Livre comércio…

Posted: 31/08/2012 in A vespa poética

Livre comércio do verbo amor

O silêncio  veste o mundo

Milhões de bocas caladas

diante das deformidades expostas em gestos dissimulados

Omissões forjadas por ideologias incompletas

E a venda estreita que cerceia a liberdade

Olhos coniventes

Dores convincentes

Atos coletivos

de egoismo impetrado

empoderando o sarcasmo

Agridem sem culpa

violam sem medo

não existe retorno

não há mais poesia no outono

Só valoriza o pão aquele que ainda tem fome

Sobre a barriga cheia do luxo

Dorme o rei incauto

A compaixão anda sem rumo

Todos aguardam salivando

pela próxima noite de natal.

Nada será como antes

Posted: 27/08/2012 in A vespa conta

 

Nosso retrato envelhecido pendurado na parede. E ao lado, o relógio, pontualíssmo como o sol. São dez para as sete da noite. Hora das lembranças rigorosas de tantas angustias regressas. O cachorro, único espectador de meus medos incautos, olha indiferente para minha cara ansiosa, como um funcionário público em tempos de aposentadoria.

Sabia que ela viria, mas nunca com a pontualidade que eu sempre desejava. Era proposital aquela inconstância de horários. Sabia que aumentava minhas expectativas. Tentei me acalmar. Olhei pela janela. Mais um cigarro. Mais um café. Mais um estalar de dedos. E o cachorro bocejava de novo.

Então ouvi o que esperava. O som da campainha. Esperei o terceiro toque para ter certeza. Queria disfarçar minha ansiedade.  Abri a porta, ela entrou e sentou-se na ponta do sofá. Os olhos correram a sala calmamente, as mãos percorreram os pelos fartos do cachorro. Dois minutos e um sorriso vago.

– Demorou alguns minutos a mais dessa vez. Eu disse tentando esconder em vão minha irritação

Ela com o sorriso calmo de quem já conhecia minhas atitudes previsíveis respondeu com voz fria

– Não estou a sua disposição. Nem venho por você. Disse sem nenhuma sombra de simpatia.

E eu sabia que ela tinha razão, me calara para não me corroer com meus arrependimentos. Entre nós não haveria jamais uma faísca do que houve no passado. Meu desejo estava intacto, bastava-me sua presença acolhedora. E ela caminhando pela casa, como nos velhos tempos, caminhou até a nossa vitrola, presente de casamento, escolheu um disco clássico e pôs-se a dançar. Tinha leveza, suavidade realçada pelo tecido leve do vestido que parecia bailar com ela. O cachorro então levantou-se, numa alegria tão rara, correndo de um lado pro outro, como se dançasse também. A mim não era dado o direito de acompanhar com o corpo aquela cena excitante. Não podia tocá-la. Mas sentia seu perfume de olhos fechados para aguçar melhor meu olfato.

– Quer comer? Perguntou de repente, me despertando do transe aromático em que me encontrava. Não disse nada. Ela sabia tudo sobre mim. Foi para a cozinha, preparou o jantar. Comemos e durante a refeição um silêncio confortante.

Até que seu choro irrompeu pelos quatro cantos da sala de jantar:

– Porque fez isso? Nunca pude entender… Éramos tão felizes!

– Mas ainda somos – respondi com a voz carregada de compaixão.

– Não sou nada, não sou ninguém, você sabe disso! O volume do choro aumentava.

– Pra mim você é tudo.

Num minuto de descontrole, virou a mesa por cima de mim. Louças e talheres se espatifaram no chão. O cachorro correu. Ela chorava. Eu tentava consolar a distância.

Ela me disse com ódio nos olhos

– Não volto mais!Nunca te perdoarei pelo que fez comigo! Você é doente! Doente! Ela gritava.

Eu, desesperado, implorava de joelhos para que não fizesse isso. Ameacei, chorei, pedi, sentia que ela estava dessa vez falando a verdade. Tive medo, não tinha mais controle algum sobre ela.

– Não faça isso, não vou suportar, não vou conseguir sem você.

Ela soltou uma gargalhada estridente. Nisso, batidas violentas na porta me fizeram correr para abri-la. Era o vizinho, aflito, perguntando se estava tudo bem, pois ouvira um barulho. Eu era temido na vizinhança.

Respondi que sim com a cabeça e fechei a porta apressado. Quando voltei, ela não estava mais, lá. Ajeitei o vestido na gaveta e o retrato na parede. O cachorro voltara a se acomodar no chão da sala. Dormi ali, no sofá, respirando o perfume dela, impassível esperando pela próxima visita.

Quando eu morro no silêncio

Que pesa

O pesar ressentido

Espasmo ressequido

E vontade de voltar

No desenrolar da saudade tardia

Porque toda saudade

É sede

E cede na ausência

Na presença recria

Transpira

Inspira o vento

A buscar novo argumento

Transparente

De felicidade inadimplente.

Distração

Posted: 17/08/2012 in A vespa imagética
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Posted: 12/08/2012 in A vespa imagética

Da série " O que a imagem diz _ Poetizando as artes visuais"