Arquivo de Abril, 2013

Moinho

Posted: 15/04/2013 in Uncategorized

Moinho

 

Na beira do abismo onde nascem os sonhos,

Homens deitados descansam suas carcaças fúnebres,

Vazias das almas que se dissolveram na luz obtusa

de um último orgasmo.

De dentro delas, nascem flores secas.

Azuis, amarelas, vermelhas.

da cor da face temível de suas viúvas desconhecidas.

E como gemem esses homens!

O gemido silencioso da dúvida.

Clamam por um colo que acalme

o frio de seus corpos vazios de esperança.

Serpenteiam ali deitados, ao som assimétrico

do útero inviolável das mulheres santas.

Elas estão prestes a parir a fúria,

como quem enfrenta um inimigo.

Elas estão prestes a parir a morte,

como quem enfrenta a vida.

A morte não é o inimigo.

A vida é.

Inimigo solitário nesse tempo aberto como o coração de Deus.

O tempo do espólio fecundo de quilos de saudade.

O tempo dos homens vazios que se anula

 dentro do olhar abatido pelo prazer pagão.

O tempo que vive neles é pagão.

A dor que deles evapora é pagã.

O perdão de suas viúvas virgens é pagão.

E os homens vazios que gemem a beira do abismo

Desejam, no delírio do tempo,

A alegria reversa dos meninos verdes.

Esses correm descalços de temores, molhados pela chuva.

A chuva é o componente místico da liberdade.

A liberdade é o átomo indivisível da alma.

Os meninos não dependem da dor que purifica os homens.

Dentro dos meninos tudo é fértil.

Tudo é santo.

Tudo é pagão.

Eles conhecem o amor. Eles não conhecem o amor.

Não sabem do amor. Só sabem do amor.

Sustentam o próprio peso no solo movediço das emoções.

Um dia serão abraçados pela vaidade indigente.

E esvaziados pela luz obtusa de um último orgasmo.

A beira do abismo dos sonhos, também descansarão

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