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Nada será como antes

Posted: 27/08/2012 in A vespa conta

 

Nosso retrato envelhecido pendurado na parede. E ao lado, o relógio, pontualíssmo como o sol. São dez para as sete da noite. Hora das lembranças rigorosas de tantas angustias regressas. O cachorro, único espectador de meus medos incautos, olha indiferente para minha cara ansiosa, como um funcionário público em tempos de aposentadoria.

Sabia que ela viria, mas nunca com a pontualidade que eu sempre desejava. Era proposital aquela inconstância de horários. Sabia que aumentava minhas expectativas. Tentei me acalmar. Olhei pela janela. Mais um cigarro. Mais um café. Mais um estalar de dedos. E o cachorro bocejava de novo.

Então ouvi o que esperava. O som da campainha. Esperei o terceiro toque para ter certeza. Queria disfarçar minha ansiedade.  Abri a porta, ela entrou e sentou-se na ponta do sofá. Os olhos correram a sala calmamente, as mãos percorreram os pelos fartos do cachorro. Dois minutos e um sorriso vago.

– Demorou alguns minutos a mais dessa vez. Eu disse tentando esconder em vão minha irritação

Ela com o sorriso calmo de quem já conhecia minhas atitudes previsíveis respondeu com voz fria

– Não estou a sua disposição. Nem venho por você. Disse sem nenhuma sombra de simpatia.

E eu sabia que ela tinha razão, me calara para não me corroer com meus arrependimentos. Entre nós não haveria jamais uma faísca do que houve no passado. Meu desejo estava intacto, bastava-me sua presença acolhedora. E ela caminhando pela casa, como nos velhos tempos, caminhou até a nossa vitrola, presente de casamento, escolheu um disco clássico e pôs-se a dançar. Tinha leveza, suavidade realçada pelo tecido leve do vestido que parecia bailar com ela. O cachorro então levantou-se, numa alegria tão rara, correndo de um lado pro outro, como se dançasse também. A mim não era dado o direito de acompanhar com o corpo aquela cena excitante. Não podia tocá-la. Mas sentia seu perfume de olhos fechados para aguçar melhor meu olfato.

– Quer comer? Perguntou de repente, me despertando do transe aromático em que me encontrava. Não disse nada. Ela sabia tudo sobre mim. Foi para a cozinha, preparou o jantar. Comemos e durante a refeição um silêncio confortante.

Até que seu choro irrompeu pelos quatro cantos da sala de jantar:

– Porque fez isso? Nunca pude entender… Éramos tão felizes!

– Mas ainda somos – respondi com a voz carregada de compaixão.

– Não sou nada, não sou ninguém, você sabe disso! O volume do choro aumentava.

– Pra mim você é tudo.

Num minuto de descontrole, virou a mesa por cima de mim. Louças e talheres se espatifaram no chão. O cachorro correu. Ela chorava. Eu tentava consolar a distância.

Ela me disse com ódio nos olhos

– Não volto mais!Nunca te perdoarei pelo que fez comigo! Você é doente! Doente! Ela gritava.

Eu, desesperado, implorava de joelhos para que não fizesse isso. Ameacei, chorei, pedi, sentia que ela estava dessa vez falando a verdade. Tive medo, não tinha mais controle algum sobre ela.

– Não faça isso, não vou suportar, não vou conseguir sem você.

Ela soltou uma gargalhada estridente. Nisso, batidas violentas na porta me fizeram correr para abri-la. Era o vizinho, aflito, perguntando se estava tudo bem, pois ouvira um barulho. Eu era temido na vizinhança.

Respondi que sim com a cabeça e fechei a porta apressado. Quando voltei, ela não estava mais, lá. Ajeitei o vestido na gaveta e o retrato na parede. O cachorro voltara a se acomodar no chão da sala. Dormi ali, no sofá, respirando o perfume dela, impassível esperando pela próxima visita.

Somos sim …

Posted: 09/06/2012 in A vespa conta

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Somos assim, solitários, correndo atrás de uma voz que não seja algoz de nossas perversões.

Somos assim, tão vaidosos, temendo a febre, a fome e o perdão.

De mãos dadas e corações perdidos, pensamentos sujos e sofrimentos individuais, somos assim, hipócritas.

Mentimos sobre tudo, mentimos muito e ainda somos ingênuos em nossas crenças próprias.

E somos assim, andarilhos, nesse caminho eterno pavimentado de dores, cheios de agonias e rejeições convulsivas.

Compulsivas paixões em ebulição. E nada preenche nossos vazios, e são tantos e ainda são poucos quando descobertos.

Somos assim, loucos, apaixonados por qualquer versão lúdica da morte, a mercê de qualquer sorte, sórdidos dormindo por qualquer sonho, solo seco de desilusões criadas do nada.

Mas somos assim também, desafetos e alegrias, no dia-a-dia, no vai e vem das nuvens, encantados e santificados

Somos assim criança em êxtase, na exaustão das brincadeiras do destino, sorrimos, dividimos o que não temos.

Tememos o que sabemos e se sabemos vira massacre. Que entorpece pra dizer que não.

E somos assim, no repente das horas, de repente desaparecemos no pó de onde estivemos em algum lugar da história.

Final de domingo.

Posted: 10/05/2012 in A vespa conta

Levantou-se e foi de encontro à porta com os passos amarrados de quem não queria ir. Parou, virou-se e olhou-me com uma ternura incompatível com o momento. Corri em sua direção. A distância já era enorme.  Segurou meu rosto com as mãos trêmulas e deu-me um longo beijo, com gosto de final de domingo. Sabíamos que era a hora do adeus. Mas nossos corpos estavam longe de concordar. Sempre me pergunto se há um momento na vida que representa a exata confluência das convicções da inteligência com as voracidades do corpo. Enquanto a resposta não vem, concentro-me nas necessidades práticas do nosso cotidiano. O meu e o dele. Não tínhamos a menor afinidade intelectual. Eu lia Hilda Hilst e ele berrava o hino obsceno do time do coração. Eu cozinhava meus melhores pratos vegetarianos e ele vasculhava nas páginas do jornal da semana o endereço da churrascaria da moda. Eu ouvia world music e ele, atento às últimas tendências do mundo pop. E as diferenças brotavam a cada dia. Não havia conflito direto, a paixão nos fazia calar os incômodos da convivência desprovida de afinidades. Vivíamos apenas breves espantos frente as nossas inúmeras incompatibilidades.

Não havia pilares no intelecto capazes de nos sustentar. Mas bastavam alguns minutos de encontro físico e tudo se dissolvia. Era um festival de suspiros, muito mel e sonhos inconfessáveis, descaradamente desvendados naqueles momentos onde éramos inteiros.

Mas como tudo que pende de um lado só, um belo dia, resolvi que queria o fim. Na verdade, nesse dia não houve nada de belo. Em pé, num triste diálogo onde me sentia acuada pela sua inconformidade, nos despedimos. Pela primeira vez, não nos despimos. Não no sentido físico da palavra. Ele trágico, ponderava sobre os meus motivos expostos sem dramatização. Eu era só certeza.

Ele questionava as causas. E eu, escondendo a minha agonia por estar dispensando, aquele que talvez tivesse sido meu melhor amante, respondia em voz alta para ele, tentando também acreditar:

-E quem precisa de razões para encerrar uma relação incompleta? Assim como não há razões para se iniciar uma paixão, um amor, uma amizade. Sentimentos são etéreos e dissimulados. Quase sempre desconhecemos a dimensão da sua verdade. Nunca chegamos ao fim, nunca entregamos as armas. Os medos estão presentes a cada beijo, a cada abraço, a cada carícia. Em cada gesto de carinho que se dá pela metade, pode procurar; o medo leva os outros 50%. É inevitável. O medo levou minha outra metade também.

E ele se foi, com as mesmas dúvidas que eu. Mas com todas as possibilidades de encontrar novas respostas, embora as perguntas permaneçam sempre nos mesmos lugares. E mais uma vez só resta uma certeza em mim, a de que o amor só é verdadeiro no seu derradeiro final, quando fechamos a porta entre nós e abrimos uma porta para o mundo.De perguntas sem respostas.