Microcontos

Posted: 23/09/2013 in Uncategorized

I

Dou-te meu futuro mal resolvido e as perdas imaginárias que eu alimento atentamente. Também te dou minhas dúvidas e minhas suposições. Tenho aos montes, todas elas guardadas em uma nuvem desenhada no centro dos meus olhos dramáticos. Em troca, quero teu passado, cuidadosamente bordado com preciosas rivalidades. Ando quase empapuçado de tanta liberdade. Liberta-me de ser tão livre, então? Não suporto mais tanta ternura reprimida. Preciso derramar. Lembrança boa é de quando passávamos os dias, a estabelecer trocas surdas e perdões mal ajambrados. Não que precisássemos um do outro. Mas as mazelas interiores tomavam forma humana quando conversávamos. E era de uma beleza tão irresponsável. Algo supurava bem no meio daquela cozinha cheirando a gordura e sexo. Nosso semiescuro habitat onde as horas se misturavam e as sensações físicas se aglutinavam movendo intermináveis confissões. A pauta do dia: como se recompor das alegrias que forjamos tão naturalmente? Elas envenenam ou envelhecem? Eu insistia que sim! Ela confabulava com sua teimosia que não. Na dúvida escolhemos acreditar que apenas por algumas horas, morreríamos. Mas para se recompor da felicidade perdida o caminho é o nunca. Nunca acreditarmos demais em quem somos.

imagem: grupo corpo  imagem:grupo corpo

                                                            

o primeiro aperto de mão.

o último suspiro de êxtase.

passando pelo momento da face ruborizada.

entre lençóis, espanto.

umidade na pele e calma.

violento ensejo. perturbação.

dos pés a cabeça.

o sangue gritando.

arredio como uma reza.

pelos quatro cantos da genitália.

quentura.

paura.

diversão.

inversão.

vestígios de mistérios decifráveis.

pecado é ilusão.

é solidão.

o gosto da vida pesando na saliva estática.

cheiro de euforia.

suavidade traumática.

restos de realidade.

velocidade ditando o ritmo. E corpo ia.

era uma dança.

Imune aos apelos da vaidade.

era carne, era boca, era um pouco da louca.

no embrulho pueril da cama.

e depois de extinta aquela chama.

a derradeira gota de fôlego,

escorrendo pelos pulmões exaustos

ainda clama.

Moinho

Posted: 15/04/2013 in Uncategorized

Moinho

 

Na beira do abismo onde nascem os sonhos,

Homens deitados descansam suas carcaças fúnebres,

Vazias das almas que se dissolveram na luz obtusa

de um último orgasmo.

De dentro delas, nascem flores secas.

Azuis, amarelas, vermelhas.

da cor da face temível de suas viúvas desconhecidas.

E como gemem esses homens!

O gemido silencioso da dúvida.

Clamam por um colo que acalme

o frio de seus corpos vazios de esperança.

Serpenteiam ali deitados, ao som assimétrico

do útero inviolável das mulheres santas.

Elas estão prestes a parir a fúria,

como quem enfrenta um inimigo.

Elas estão prestes a parir a morte,

como quem enfrenta a vida.

A morte não é o inimigo.

A vida é.

Inimigo solitário nesse tempo aberto como o coração de Deus.

O tempo do espólio fecundo de quilos de saudade.

O tempo dos homens vazios que se anula

 dentro do olhar abatido pelo prazer pagão.

O tempo que vive neles é pagão.

A dor que deles evapora é pagã.

O perdão de suas viúvas virgens é pagão.

E os homens vazios que gemem a beira do abismo

Desejam, no delírio do tempo,

A alegria reversa dos meninos verdes.

Esses correm descalços de temores, molhados pela chuva.

A chuva é o componente místico da liberdade.

A liberdade é o átomo indivisível da alma.

Os meninos não dependem da dor que purifica os homens.

Dentro dos meninos tudo é fértil.

Tudo é santo.

Tudo é pagão.

Eles conhecem o amor. Eles não conhecem o amor.

Não sabem do amor. Só sabem do amor.

Sustentam o próprio peso no solo movediço das emoções.

Um dia serão abraçados pela vaidade indigente.

E esvaziados pela luz obtusa de um último orgasmo.

A beira do abismo dos sonhos, também descansarão

Dulcíssimo abraço

Posted: 23/02/2013 in Uncategorized

Imagem

Imagem do filme “Sonhos” de Akira Kurosawa

Um abraço só.

Entre um passo sôfrego e outro

meu riso incongruente se decifra em dois caminhos.

Um é de beijos e afagos.

Outro é de dúvidas e tormentos.

Dúvidas e tormentos.

…Dúvidas e tormentos…

E a música cínica de minha memória tendenciosa,

embala meus amores intangíveis.

Sempre espero pela dor que me desperta, tranquila,

da plenitude dos sonhos  belos.

Fico com o medo. Nele sou muito mais.

Nele sei andar sozinha.

Nele eu fico do tamanho da infância.

Tragédia é a renúncia da felicidade ilusória.

Ao menos uma vez.

No mistério de um abraço é que a vida se perde.

No mistério de um abraço é que a vida se vê outra vez, só.

No mistério de um abraço.

Outra vez.

Só.

Fanfarra

Posted: 09/01/2013 in A vespa poética

 

                    Ô vida inútil!

                Ô vida sem graça!

         Debocha de mim, malvada,

           enquanto o tempo passa.

             Mas a risada mais alta

                 enfim será minha.

             Ao final dessa jornada,

        quando eu bater em retirada

         por tristeza, fome ou tiro.

          Livro-me da tua insolência,                             

                  Provo ao fracasso

                 minha competência 

           E te deixo sem reticência.

          E no frio de minha ausência

                  Há de sentir falta

           do meu mundo colorido.             

         Do meu querer constrangido,

        Minha decência escancarada.

      E todo amor que plantei escondido,

     enquanto teu peso me assustava

         há de tecer na madrugada

           milhões de campos floridos.

           Dispersos. Quase Infinitos.

         Do tamanho dos meus amores.